Pular para o conteúdo principal

Mudanças climáticas: 6 patrimônios culturais da África sob ameaça

As mudanças climáticas têm reduzido a disponibilidade de adobe de alta qualidade para construções históricas em Djenné, no Mali
As mudanças climáticas têm reduzido a disponibilidade de adobe de alta qualidade para construções históricas em Djenné, no Mali Getty Images

Da arte rupestre no sul às pirâmides ao longo do rio Nilo, o homem tem deixado suas marcas no continente africano há milênios. Entretanto, os efeitos das mudanças climáticas — nas quais o papel das intervenções humanas têm cada vez mais sido demonstrado — colocam estas próprias marcas culturais em risco.

Em uma publicação científica recente, pesquisadores do Reino Unido, Quênia e Estados Unidos afirmam que é necessária uma “mobilização significativa” para salvar patrimônios culturais de eventos climáticos extremos, como o aumento do nível do mar e tempestades.

Multas do Ibama despencam apesar de recorde de queimadas no Pantanal

Por que a capital da Tunísia pode ser a ‘nova Roma’

E, nas últimas semanas, o alerta tem se materializado em um exemplo: arqueólogos do Sudão estão se esforçando para impedir que enchentes do Nilo cheguem às ruínas de al-Bajrawiya, considerado um Patrimônio Mundial pelas Nações Unidas.

Conjunto considerado um patrimônio da humanidade, as ruínas de al-Bajrawiya têm 2,3 mil anos de idade
Conjunto considerado um patrimônio da humanidade, as ruínas de al-Bajrawiya têm 2,3 mil anos de idade Getty Images

O rio inunda todo ano, mas pessoas da região relatam que o nível nunca esteve tão alto.

A equipe de cientistas que escreveu recentemente sobre ameaças como essa listaram alguns patrimônios que também estão em risco na África.

Suakin, Sudão

Suakin tem uma estratégica localização na costa do Mar Vermelho
Suakin tem uma estratégica localização na costa do Mar Vermelho BBC NEWS BRASIL

 

Suakin, no nordeste do Sudão, já foi um porto muito importante no Mar Vermelho.

Sua história começou há 3 mil anos, quando faraós egípcios transformaram o local estratégico em porta de entrada para o comércio e outras formas de exploração.

Mais tarde, Suakin se tornou um lugar de passagem para peregrinos muçulmanos a caminho da Meca e desempenhou um papel significativo no tráfico de escravizados do Mar Vermelho.

Também foi parte do Império Otomano, embora tenha perdido sua proeminência depois que o Porto Sudão foi construído mais ao norte no início do século 20.

Foto de 1930 mostra todo o esplendor de Suakin no passado
Foto de 1930 mostra todo o esplendor de Suakin no passado Getty Images

Grande parte de Suakin está em decadência, mas ainda contém belos exemplos de casas e mesquitas, diz a organização cultural das Nações Unidas, a Unesco.

Joanne Clarke, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, está atualmente trabalhando para quantificar a velocidade com que o aumento do nível do mar e a erosão costeira podem afetar o patrimônio — possivelmente, de forma irreversível.

“O que sabemos é que a costa do Mar Vermelho será afetada nas próximas décadas, o que significa que o que atualmente está de pé será perdido [sem intervenções]”, diz Clarke.

Cidade velha de Lamu, Quênia

Lamu é destaque mundial por sua arquitetura única
Lamu é destaque mundial por sua arquitetura única Getty Images

A cidade velha de Lamu guarda o assentamento suaíli mais antigo e mais bem preservado da África Oriental, de acordo com a Unesco.

Ao contrário de outras cidades e vilas ao longo da costa da África Oriental, muitas das quais foram abandonadas, Lamu é habitada continuamente há mais de 700 anos.

Também se tornou um polo significativo para o estudo das culturas islâmica e suaíli, acrescenta a ONU.

Diferente de outros locais históricos da costa da África oriental, Lamu é habitada continuamente há séculos
Diferente de outros locais históricos da costa da África oriental, Lamu é habitada continuamente há séculos Getty Images

Entretanto, Lamu é “severamente afetada pelo recuo da costa”, o que significa que a proteção natural antes oferecida pela areia e vegetação foi perdida.

Isso aconteceu em parte pela mudança nos níveis do mar, mas Clarke também culpa a construção do enorme porto de Lamu ao norte da cidade velha, “que está destruindo os manguezais que protegem a ilha de inundações”.

“Portanto, muito do que chamaríamos de patrimônio natural é uma proteção ao patrimônio cultural. E à medida que destruímos o patrimônio natural, também deixamos os patrimônios culturais expostos.”

Construções costeiras, Comores

Várias cidades na ilha foram sugeridas como patrimônio mundial
Várias cidades na ilha foram sugeridas como patrimônio mundial Getty Images

Comores, um arquipélago vulcânico na costa leste da África, tem várias construções antigas bem preservadas, incluindo uma medina e um palácio com centenas de anos de idade.

Mas é um dos lugares “mais ameaçados” pelo aumento do nível do mar na África, aponta Clarke.

Mutsamudu tem construções do século 14
Mutsamudu tem construções do século 14 Getty Images

Em um cenário possível de emissões globais de carbono moderadas a altas, “partes significativas da zona costeira africana serão inundadas até 2100”, de acordo com o estudo.

“Em 2050, Guiné, Gâmbia, Nigéria, Togo, Benin, Congo, Tunísia, Tanzânia e Comores estarão todos sob ameaça significativa de erosão costeira e aumento do nível do mar.”

Fortes e castelos costeiros, Gana

Fortes na costa de Gana tiveram papel fundamental no comércio de ouro e depois no tráfico de escravos
Fortes na costa de Gana tiveram papel fundamental no comércio de ouro e depois no tráfico de escravos Getty Images

A costa de Gana é cheia de entrepostos comerciais fortificados, fundados entre 1482 e 1786, que se estendem por 500 km ao longo do litoral.

Os castelos e fortes foram construídos e ocupados em épocas diferentes por comerciantes de Portugal, Espanha, Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha e Reino Unido.

Essa infraestrutura desempenhou um papel importante no comércio de ouro e, posteriormente, na ascensão e queda do tráfico de escravizados entre a África e as Américas.

Patrimônios culturais na costa oeste da África são vulneráveis a tempestades e aumentos do nível do mar
Patrimônios culturais na costa oeste da África são vulneráveis a tempestades e aumentos do nível do mar Getty Images

Mas os fortes estão localizados em áreas altamente vulneráveis a tempestades e à elevação do nível do mar.

Clarke diz que algumas pérolas dessa arquitetura, como o Forte Prinzenstein, estão sendo “erodidas pelo mar”.

Comparando as imagens atuais do forte com as tiradas há 50 anos, é possível ver como a estrutura já foi deteriorada.

Arte rupestre em Twyfelfontein, Namíbia

Twyfelfontein foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade em 2007
Twyfelfontein foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade em 2007 Getty Images

As mudanças climáticas podem aumentar a umidade em áreas relativamente áridas e, com isso, criar condições para a proliferação de fungos e micróbios nas rochas.

É o que está acontecendo em locais como Twyfelfontein, na Namíbia, que tem uma das maiores concentrações de arte rupestre da África.

A Unesco descreve o lugar como um “registro extenso e de alta qualidade de práticas rituais de caçadores-coletores há pelo menos 2 mil anos”.

Djenné, Mali

 A história extraordinária de Djenné remonta a séculos antes de Cristo
A história extraordinária de Djenné remonta a séculos antes de Cristo BBC NEWS BRASIL

 

As cerca de 2 mil casas de barro de Djenné formam um dos cartões postais mais icônicos do Mali. Habitada desde 250 a.C., Djenné era uma cidade mercantil e um importante elo ponto na rota do ouro transsaariana.

Nos séculos 15 e 16, foi um dos centros de expansão do Islã na África Ocidental.

Moradores acabam recorrendo a materiais mais baratos para substituir o barro de construções de Djenné, alterando o conjunto histórico
Moradores acabam recorrendo a materiais mais baratos para substituir o barro de construções de Djenné, alterando o conjunto histórico Getty Images

Mas a mudanças climáticas estão afetando a disponibilidade de lama de alta qualidade usada pelos residentes originais para essas construções.

A população local, que também viu sua renda cair com safras ruins na agricultura, acaba recorrendo a materiais mais baratos — o que “está mudando radicalmente a aparência da cidade”, diz o estudo.

'Lugar inacreditavelmente maravilhoso’

Pinturas rupestres no complexo de Laas Gaal têm 5 mil anos de idade
Pinturas rupestres no complexo de Laas Gaal têm 5 mil anos de idade Getty Images

Alguns países estão em melhor posição para lidar com o impacto das mudanças climáticas em seu patrimônio.

O Egito, por exemplo, fica em uma região de baixa altitude sob “grave risco de enchentes nas próximas décadas”, mas tem mais estrutura para lidar com alguns dos desafios.

Há por outro lado lugares que podem desaparecer “sem quase ninguém saber”, diz Clarke, com pinturas rupestres na autodeclarada Somalilândia. Arqueologicamente, trata-se de um lugar “inacreditavelmente maravilhoso”, diz a professora — mas pouco conhecido em outros continentes e carente de recursos para sua proteção.

 



Este texto foi publicado primeiro em http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/mudancas-climaticas-6-patrimonios-culturais-da-africa-sob-ameaca-05102020

Via RSS publicado em https://vitorolig.tumblr.com/post/631186842551746561

Postagens mais visitadas deste blog

Duke Kahanamoku reflects on surfing, Olympics, and old Hawaii in 1966 interview

Duke Kahanamoku is the most influential surfer of all time and is often hailed as the father of modern surfing. There is nearly no one questioning these titles. Recently, Public Broadcasting Service (PBS) Hawaii unveiled a never-before-seen interview with the legendary surfer and Olympic swimmer. In the 1966 episode of Pau Hana Years, a seminal Hawaii television program that aired on KHET-TV (now PBS Hawaii) for 16 years, running from 1966 until 1982, Bob Barker chats with Duke Kahanamoku, then 76. The conversation drifts from royal ancestry to Olympic lanes, from Hollywood sets to a surfboard shaped by hand, tracing the outline of a life that helped define modern surfing and Hawaii's public image in the 20th century. And if you know little about the man who dreamed of getting surfing into the Olympic Games, this is a precious piece of history. A name with history, worn casually The interview starts with Kahanamoku explaining that "Duke" is not a title but his giv...

The hydrodynamics of surfboard fins

Have you ever wondered why a surfboard fin looks like that? It is a single or a set of fixed blades or keels located under a board, near the tail, often no bigger than a hand. Yet that small surface is where much of the surfboard's behavior takes place. Speed, hold, looseness, and the feeling of control all trace back to how water moves around fins. The physics of surfboard fins falls under hydrodynamics, the study of how fluids behave in motion. So, according to science, they feature a shape designed to turn flowing water into several forces. Let's take a look at what's at stake when fins and water interact. Lift and the feeling of control One of the key variables in hydrodynamic terms involving surfboard fins is lift. When a surfer leans into a turn, the board tilts and the fins meet the water at an angle. The angle is enough to create a pressure difference between the two sides of the fin. Water speeds up on one side and slows on the other. The result is a sidewa...

How paddleboarding transforms your body and mind

Adventure is on our doorstep. With so many different bodies of water available to paddleboarders, from city canals to coastal routes, we can find adventure in places much closer to home than people might initially expect. According to the Canal and River Trust, 50 percent of people in England and Wales live within just eight kilometers of a canal or river, and eight million people live less than one kilometer away. I had lived within just a few kilometers of the Leeds and Liverpool Canal for years and never really explored it before stand-up paddleboarding (SUP) came into my life . The challenge created both a new perspective and a deeper love for where I lived and the areas which I passed through. On my coast-to-coast journey, I slept in my own bed for two nights as the route passed through my then hometown of Skipton, yet I felt I was on a grand journey of discovery. We are braver, stronger, and more resilient than we think. SUP not only helps us feel more connected to our va...