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O que a arte japonesa do Kintsugi pode nos ensinar sobre a pandemia

Imagem: Fotomontagem (Acervo Geraldo Yoshizawa)
Imagem: Fotomontagem (Acervo Geraldo Yoshizawa) Programa Inova 360

 Por Geraldo Luiz Yoshizawa

A cultura japonesa tem conceitos simples, em sua essência, mas que trazem grande beleza e complexidade por traz. Conceitos muitas vezes ancestrais, base de uma filosofia de vida e bem-estar que podem ser resumidos em simples palavras, termos e expressões.  Eles falam, por exemplo, de paciência e persistência (Gaman), confiança e servir ao próximo (Osettai), beleza da imperfeição (Wabi-sabi), melhora contínua (Kaizen), gratidão (Kansha), garra e força (Ganbatê), combate ao desperdício (Motainai) e cuidado com si mesmo e com os outros (Ki o tsuketê).

Acredito que nesse momento tão delicado, como o que estamos vivendo, essas características serão essenciais não só para as pessoas, mas também às empresas que deverão buscar formas mais comprometidas com o bem-estar coletivo ao fazerem negócios e modelos mais colaborativos que visem o bem comum. É importante que estejamos realmente empenhados na reconstrução de um mundo melhor na pós pandemia.

Para nos ajudar a aprender e a entender esse momento de crise, pandemia e isolamento social e como podemos sair transformados de tudo isso, resolvi falar um pouco do Kintsugi, uma arte milenar japonesa que consiste em reformar vasos quebrados com pó de ouro, tornando-os ainda mais valiosos do que eram, antes de quebrados. As emendas em ouro ficam aparentes, para mostrar que o vaso foi realmente quebrado, emendado e ganhou um novo status, mais raro, forte, valioso e bonito.

Mais que uma técnica, essa arte é considerada uma filosofia de vida com um conjunto de valores, e aborda resiliência, superação e a beleza que existe na imperfeição. Um curso de Kintsugi, por exemplo, é abrangente e não envolve apenas o aprendizado da técnica de consertar os vasos, mas valores e conceitos de vida mais amplos que nos ensinam a valorizar paciência, a melhorar continuamente, a termos gratidão e saber servir aos outros, cuidar do próximo e a ter auto cuidado porque, se não nos cuidamos, podemos “nos quebrar”.

A relação entre o Kintsugi e a pandemia está justamente em nos fazer pensar como sairemos dessa fase nada fácil e de crise, que agora se impõe. Como reconstruiremos um mundo que metaforicamente foi quebrado e tem rachaduras, usando todo o aprendizado, paciência, resiliência e valorizando oportunidades de crescimento pessoal e coletivo que as dificuldades nos trazem. Ou seja, um mundo mais bonito e valioso, como os vasos reconstruídos com pó de ouro e laca.

Afinal o Kintsugi tem a ver com uma peça que sofreu um dano enorme, veio a ser consertada com muita resiliência e paciência (gaman) e que, além de mais forte do que antes, ficou ainda mais bonita, porque adquiriu o Wabi-sabi, uma característica muito valorizada na estética japonesa, que é o valor da imperfeição e da consciência de que nada é perfeito no mundo. A beleza dos vasos kintsugi é justamente o wabi-sabi, sua condição de imperfeição, mas mesmo assim belo ou, por causa disso, ainda mais bonito. O wabi-sabi tem a ver com o culto à imperfeição presente na cultura japonesa.

É uma das dicotomias da cultura japonesa, que é complexa, com muitos paradoxos, características contrárias em si mesmas, mas que ainda assim são aparentemente simples.

Quem quiser saber mais sobre o Kintsugi recomendo investir no livro Kintsugi Wellness: The Japanese Art of Nourishing Mind, Body, and Spirit, cuja tradução é “Kintsugi Wellness: A arte japonesa de nutrir a mente, o corpo e o espírito”. É um verdadeiro guia de bem estar e estilo de vida e vale não apenas pelos ensinamentos, mas pela beleza das fotos e até receitas gastronômicas. A obra está disponível no Amazon Kindle, onde é possível encontrar versões mais econômicas sobre o tema, como o e-book “Kintsugi: O poder de dar a volta por cima”, de Edgar Ueda.

Essa fase de isolamento nos dá a chance de nos refazermos, de nos superarmos e nos tornamos ainda mais fortes e com mais vitalidade do que antes. Com certeza, nosso mundo não será igual ao que era antes. Não voltaremos ao “normal” ou talvez ao “novo normal”, como muitos passaram a classificar a fase que virá após a pandemia. Acredito que sairemos dessa fase diferentes e transformados.

A vida, como tínhamos, sofreu rachaduras e essas rachaduras, por mais imperfeitas que possam parecer, são o que pode nos tornar ainda melhores e mais humanos, solidários, preocupados não somente com o nosso bem-estar, mas com o bem-estar da coletividade e do próximo. Afinal o isolamento é um esforço imposto a nós mesmos, que além de evitarmos sermos contaminados, também nos permite não contaminarmos os outros. É um esforço coletivo para o bem de todos.

A filosofia oriental, como um todo, tem muitos conceitos e valores que são traduzidos em palavras, com profundos significados, e que nos ajudam a ter mais autoconhecimento e sabedoria. Convido você a conhecer um pouco mais e, caso sinta-se confortável, praticar o esforço de ver além das aparências do que de fato precisamos valorizar na vida. Sobre a pandemia, acredito que o mundo sairá dessa melhor, mais bonito, porém ainda imperfeito.

#FiqueEmCasa #EuTeProtejoVoceMeProtege #EntregaSegura

Por Geraldo Luiz Yoshizawa, fundador e CEO da empresa de armários inteligentes Limelocker, idealizador e apoiador do movimento “Entrega Segura”, comentarista do programa Inova360, no quadro Entrega Segura e colunista do Inova360/R7 sobre o tema.

Linkedin: www.linkedin.com/in/geraldoyoshizawa/

Sites: https://limelocker.com.br/ e www.entregasegura.org

 

 



Este texto foi publicado primeiro em http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/programa-inova-360/o-que-a-arte-japonesa-do-kintsugi-pode-nos-ensinar-sobre-a-pandemia-22052020

Via RSS publicado em https://vitorolig.tumblr.com/post/618858102376333312

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